O QUE APRENDI COM UMA DOENÇA AUTOIMUNE

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Foi em um dia de 2012 que eu tive um sonho ruim e acordei pensando na minha mãe. Ela havia se mudado recentemente para o Pará. Foi passar uns dias e devido às boas oportunidades de trabalho, por lá ficou. Minha mãe sustentou três filhos sozinha com sua profissão: esteticista. A vida dela era voltada para melhorar autoestima das pessoas. Um dos seus trabalhos mais significativos era a maquiagem definitiva. Uma técnica que deixava mais bonita sobrancelhas, contorno dos lábios e também reconstruía os mamilos, no caso daquelas mulheres que tiveram câncer de mama. Ela foi a primeira pessoa a trabalhar com essa técnica aqui na nossa cidade em Minas Gerais, ainda na década de 80.

Em Abril de 2013 eu tive um outro sonho ruim e acordei com a certeza de que algo não estava bem com ela. Não falei com ninguém sobre o sonho. Mas liguei pra minha mãe pedindo que ela voltasse pra Minas. Ela voltou, e como estava com uma tosse seca incessante e com a pele escurecida, fez exames. As suas mãos também estavam mais rígidas e mudavam de cor com o frio. Em uma visita à nossa cidade, a minha irmã, que é médica, olhou os resultados dos exames e disse: “Mamãe está com alteração no FAN. Está com esclerodermia (esclerose sistêmica)”.  Um outro médico, especialista da área, confirmou. Rapidamente visitei vários sites em busca de respostas. Esclerose Sistêmica é uma doença autoimune pouco conhecida e de difícil diagnóstico. O tecido conjuntivo sofre uma inflamação e por consequência ocorrem alterações na pele, vasos sanguíneos, nos músculos e nos órgãos internos. Há um acúmulo de colágeno que causa tudo isso. Há o tipo sistêmico, que afeta a pele, órgãos e sistemas internos do organismo e a localizada, que afeta determinada área da pele.  Minha mãe foi diagnosticada com o pior tipo: o sistêmico. Sentia dores, falta de ar ao andar, dedos enrijecidos, pressão alta, entre outros inúmeros sintomas. A esclerose sistêmica mudou a sua vida. Completamente. Mudou a sua vida inclusive esteticamente. Minha mãe sempre foi muito vaidosa e ativa. Sempre se alimentou de coisas saudáveis. E até sua alimentação foi afetada, algumas frutas ou legumes passaram a ser proibidos em seu cardápio. Uma das coisas que ela mais amava era comer abacaxi. Eu nunca mais vi a minha mãe comer abacaxi pois nas vezes que ela arriscou comer, os efeitos foram muito ruins ao seu estômago. Como a esclerose sistêmica também muda muito a aparência, era muito comum alguém encontrá-la na rua e dizer: “Nossa, mas você está diferente”. E isso me doía e revoltava. Porque eu via o quanto fazia mal à minha mãe ouvir isso. Eu ficava impressionada com a falta de delicadeza das pessoas. Minha mãe sabia que sua aparência tinha mudado e não precisava que ninguém te dissesse isso. A doença também afetou a nossa vida financeiramente. Ela passou a tomar mil e um remédios. Cada um mais caro que o outro (e cada um com mais efeito colateral que o outro). Alguns ela conseguiu sem custo, outros, não.

Minha irmã que trabalhava e fazia especialização no Rio passou a trabalhar mais para dar conta. Cada dinheiro que entrava lá em casa era para amenizar os efeitos da doença. Amenizar, porque não tem cura. Não tem cura e é o tipo da doença que hoje você está bem mas amanhã você pode não estar nada bem. Eu desisti de explicar isso para as pessoas. Sei que elas me perguntavam por bem: “Oi, Nat, como sua mãe está?” Mas isso era muito relativo e até dolorido de responder. Não havia uma resposta certa. Era um assunto que eu preferia evitar.

O pulmão da minha mãe foi o mais afetado, ela não tinha fôlego e suas tosses às vezes duravam o dia todo. A noite toda. A esclerose afetou toda nossa a vida. Não é nada fácil conviver com a doença, não é nada fácil você ver uma pessoa da família passar por tudo isso e saber que não tem cura, só tratamento e que o tratamento às vezes tem efeitos nocivos. Por essas e outras eu digo que até hoje a minha mãe não aceitou bem a doença. Há dias piores que os outros, o emocional é muito afetado também.  Mas ela não se entrega e uma coisa que foi e é muito importante nesse processo todo é: ter algum projeto, ter um objetivo na vida, um sonho, uma motivação. O sonho da minha mãe sempre foi conhecer a Itália e mesmo a doença ter tornado esse sonho mais distante financeiramente e fisicamente devido às suas limitações, ela continua estudando italiano. Ela estuda italiano sozinha há mais de dez anos. Isso a mantém viva. Isso faz com que a sua vida tenha um sentido muito maior que um exame, um diagnóstico e algumas caixas de remédio. Mas acho que o mais importante de tudo foi o trabalho. Como eu disse, a vida da minha mãe foi dedicada à elevar a autoestima das mulheres através de procedimentos estéticos. E ela, mesmo com limitações, continuou. Havia dias em que ela se entristecia por sua aparência mas era só chegar uma cliente querendo fazer a maquiagem definitiva na sobrancelha que a minha mãe se alegrava. Tirava fotos do antes e do depois e publicava nas redes sociais o resultado. Deixar as mulheres mais bonitas a mantinha mais viva também. E isso era tão nítido que havia dias em que ela tossia o tempo todo mas quando chegava alguma cliente a sua tosse diminuía. Nem sei se ela percebia isso mas trabalhar era um dos seus melhores remédios. E nesse tempo todo de esclerose sistêmica não foram poucas as vezes em que eu a via trabalhar inclusive nos sábados e nos domingos.

Um dia eu cheguei onde ela atendia suas clientes e me deparei com uma luva cirúrgica cheia de água, parecendo um balão. Achei curioso mas não falei nada. Nos outros dias voltei a encontrar luvas com água dentro, aí decidi perguntar o porquê da luva preenchida com água. Então ela me explicou e eu entendi o significado do trabalho em sua vida e a força que ela tinha para não deixar de trabalhar devido sua limitações. Ela enchia luvas com água quente sempre que iria atender clientes pois devido a doença os seus dedos ficaram mais rígidos e a água quente amenizava esse efeito, facilitando que ela exercesse o seu trabalho.

O seu amor pelo trabalho é tão grande que ela o concilia com a doença. De tempos em tempos ela vai à São Paulo se consultar com um médico que é referência na área, o Percival. E ela teve uma ideia muito bacana: toda vez que ela ia a São Paulo se consultar, ela passou a fazer algum curso por lá na sua área de atuação. Isso permitiu que ela atendesse ainda melhor às suas clientes. Aumentou sua rede de contatos, fez amizades e sempre é recebida com cuidado especial no lugar onde fica hospedada. Pessoas maravilhosas nos são enviadas todos os dias, das mais diversas formas.

E ela, que sempre se perguntava o porquê de ter essa doença, descobriu que não era a única. Há algum tempo, eu dei um smartphone a ela e ela aprendeu a usar as redes sociais. Entrou nos grupos de pessoas que também tinham a doença e ali conheceu histórias de quem passava por dificuldades semelhantes, pessoas que aprendiam a ser fortes juntas, compartilhando suas experiências, compartilhando informações sobre remédios, consultas, exames, notícias e acima de tudo: compartilhando força. O paciente descobre que além de ter que encontrar força, ele precisa cultivá-la diariamente. Ele precisa cultivar força quando o corpo dói, quando a aparência muda, quando os olhares curiosos o perseguem, quando perguntas ou constatações indelicadas são ditas, quando o preconceito emerge e quando a falta de conhecimento surge. Precisa cultivar força para se aceitar. E acima de tudo para não se entregar. E precisa manter vivo aquilo que o move: um sonho, um aprendizado, um trabalho, um curso. Claro que respeitando as suas limitações. Porque são essas coisas que fazem com que ele veja que a vida vai muito além de um diagnóstico. A vida não é só o corpo físico. Na verdade, a parte mais bonita da vida é intangível: é o sentimento, é a alma, é o sonho, é o amor, é a mão que nos é estendida. Eu quero desejar do fundo do meu coração muita luz a todas as pessoas que estão enfrentando uma doença autoimune, pois elas lidam diariamente com incertezas e preconceito.

E a minha mãe, a quem nem sempre eu sei demonstrar sensibilidade e paciência, se tornou pra mim um exemplo de força, de fortaleza, de transcendência, um exemplo de que o impossível é possível.  Ela é muito mais que uma mulher que tem esclerose sistêmica. Ela é uma mulher que, mesmo enfrentando tantas lutas e limitações, continua cumprindo sua missão e contribuindo positivamente para a autoestima de centenas, milhares de mulheres mesmo quando a sua própria está afetada, porque a doença atingiu os seus dentes e agora ela só tem coragem de sorrir sob uma máscara.

E enquanto eu reclamei de cansaço, ela estava em cima de uma cama de um hospital, tomando mais uma dose de um forte remédio, ligando para uma cliente e tranquilizando a sua cliente, dizendo que em breve estaria atendendo novamente. E toda vez que a vida me dá um “Não” e eu tenho vontade de desistir, eu lembro que a esclerose diz “Não” à minha mãe de todas as formas possíveis, mas ela, guerreira e rainha, transforma o “Não” em “SIM”. Ela me ensina o que é ESPERANÇA.

 

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

(Escrito em Março de 2016)

OS DIAS MAIS DIFÍCEIS


Os dias menos difíceis são justamente aqueles em que menos entendo a morte, ou em que mais a entendo erroneamente. Como apenas uma breve despedida. Como se você fosse voltar pra mim e pra nossa casa a qualquer instante. E sou quase capaz de ouvir a sua voz derrotar esse silêncio que se instaurou dentro e fora de mim. Os dias mais difíceis são aqueles em que entendo a morte tal qual é: definitiva, criando a impossibilidade de um contato onde até pouco tempo era cotidiano. Eu tento me agarrar às últimas lembranças e a suas últimas palavras, mas sei que o tempo virá, implacável, tornar as memórias que até então são tão vivas, cheias de cinzas. 

Nat Medeiros 

Fonte da imagem: Pinterest

A DOR DE PERDER O QUE NÃO SE TEM

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Eu sei como é desesperador se pensar que vai perder uma pessoa. Como dá vontade de gritar e de fazer qualquer tipo de artimanha para que aquela pessoa fique. A gente fica irracional, inventa histórias, tudo isso para não perdê-la. Mas a gente perde, e sabe por quê? Porque na verdade a gente nunca teve. A gente nunca tem ninguém e mesmo assim a gente sofre desesperadamente quando esse alguém vai embora.

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

EU QUERO UM AMOR QUE SAIBA SER SÓ

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Eu quero um amor que saiba ser só. Com todas as vírgulas que isso possa representar. Um amor que não precise de mim, porque precisar é verbo frio demais e não arbitrário. Eu quero um amor que saiba ser só, que não precise de mim, mas que queira estar. Querer, é este o verbo que escolho. Que estejamos juntos apenas enquanto quisermos.

Um alguém que sabe estar só, não usa o outro como forma de fugir de quem se é. Alguém que sabe estar só, não sente necessidade de se entregar a outra pessoa no primeiro desentendimento do casal. Alguém que sabe estar só, não se refugia em festas e farras intermináveis, pois já aprendeu a lidar com si mesmo.

Uma pessoa que sabe ser só, só entrará em um relacionamento se tiver sentimento e segurança o suficiente para tal. Caso contrário, esse alguém permanece sozinho. Eu não quero um amor frágil, que se estremeça em qualquer ventania. Uma pessoa forte não há porque querer um amor fraco.

Eu quero um amor que já se doeu por outros amores. Porque a dor nos ensina. E nos forja. E nos amadurece. Hoje eu sou mais madura também. Eu quero um amor que já amou antes e que foi feliz. Eu hei de respeitar o seu passado, as suas fotos antigas, hei de deixar as suas lembranças intactas porque eu sei que o que ele viveu faz parte do que ele é. Não se apaga o passado. Aprende-se com ele. Que ele respeite o meu passado e a minha história também. Então eu quero um amor que tenha um passado, mas que esteja ao meu lado em um mesmo presente. Que sejamos presentes um para o outro em toda a variedade de significados que essa palavra possa representar. E que esse presente almeje um futuro para que possamos concretizar a palavra “continuar”.

Eu não quero um amor que esteja comigo apenas quando mais nenhuma opção restar. Mas que opte por estar comigo mesmo tendo outras opções. Um amor que não esteja comigo porque não saiba estar só. Mas que tenha aprendido estar só, a gostar disso, e ainda sim queira ao meu lado estar. Porque é somente sabendo ser só é que podemos ser um bom par.

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

 

“ERA O FRACO QUE DEVIA SER FORTE E PARTIR”

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Como terminar o que ainda nem tinha começado? Como terminar o que dentro de mim ainda vivia e pedia para viver mais? Como dizer adeus se o que eu mais queria era ficar? Como te liberar para outras pessoas se o que eu mais queria era você perto de mim? Como desistir dessa história se o amor que eu sentia ainda não tinha desistido? Como?

Milan Kundera, em a Insustentável Leveza do Ser, disse: “Mas era justamente o fraco que devia ser forte e partir“. E eu sabia que com a gente também tinha de ser assim. Era eu que estava sentindo demais, era eu que tinha todas as células tomadas pelo amor, era eu que transbordava em lágrimas que morriam no travesseiro quando você desaparecia e não me incluía na sua vida. Era eu que deveria dizer um adeus definitivo e seguir em frente, mesmo que aos pedaços. Era eu que tinha que terminar aquilo, pois aquilo somente pra mim tinha começado.

A sua porta estava entreaberta. Nunca fechada. Nunca escancarada. Por ali eu entrara. Por ali outras garotas entravam também. Isso me doía a cada vez eu que respirava. E a cada vez que meus olhos piscavam, lágrimas passaram a cair. Era o fraco que devia ser forte e partir. Eu olhei pra você uma última vez. Olhei com um cuidado absurdo para que você não percebesse a sutileza das lágrimas que salgavam a minha pele, já ferida. Se você me deixasse partir, eu sabia que não poderia mais voltar. Nunca. E eu não voltaria. Eu te olhei, e eu acho que o meu olhar te disse tantas coisas, tinha tanto sentimento ali. Mas aquilo nunca teria significado pra você e você, naturalmente, não fez nenhuma objeção à minha partida. Em silêncio, fechei aquela porta por onde eu havia entrado meses atrás. E ali, naquele momento, apesar de fraca, fui mais forte que o mundo.

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

 

 

 

DESCULPE, MAS ELA NÃO É DE BALADA

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Desculpe mas ela não é de balada. Não que isso a faça melhor do que alguém. Não que isso a faça pior. Mas ela tem essa característica que é bem particular dela. E se você quer conhecê-la, isso é um ponto importante que deve saber.

Ela não é daquelas garotas que você vai encontrar na fila da balada usando um salto quinze e com disposição para dançar até o dia amanhecer. Ela não gosta de micaretas e se sente perdida em eventos sociais. Ela possui uma alma mais velha do que o corpo e às vezes gosta de se refugiar em seu próprio quarto. Ela costuma dizer que nasceu na época errada.

Antissocial ela não chega a ser. Porém ela é bem restritiva no que tange aos lugares que frequenta e às pessoas que a rodeiam. Inacessível? Não. Ela só é na dela. Prefere lugares tranquilos que a permitam ser ela, genuinamente ela. Prefere músicas que não a ensurdeçam e que permitam uma boa conversa. Prefere quem a olhe nos olhos enquanto fala, prefere quem se desliga do mundo enquanto a escuta. Pois é assim que ela age também.

Exigente? Sim, ela é exigente, mas ela vai exigir apenas o seu melhor. Ela não se contenta fácil. Conversas vazias no whatsapp nunca a encantaram. Ela não troca a presença de alguém que ela gosta por uma notificação no celular. Inclusive, o seu celular tem ficado mais desligado ou no silencioso.

Inclusive o silêncio é uma outra coisa que ela aprecia. Ela o valoriza pois sabe que o silêncio pode acrescentar mais do que certas palavras. O silêncio permite que ela escute a si mesma. O silêncio já permitiu que ela se curasse também.

Se curasse? Talvez você não perceba, afinal, ela demonstra tanto ser forte, mas ela já esteve quebrada por dentro, com a dor invadindo o seu coração e todos os espaços da sua alma. Ela já se doeu porque se doou. E no fim das contas, o amor que a faz sonhar a fez chorar também. Mas ela se refez. Não se refez indo a baladas ou beijando outros caras. Ela se refez cuidando de si mesma, cultivando seus silêncios e respeitando a sua dor. Se embebedando de livros e filmes na Netflix. Foi exatamente assim que ela se curou. E foi assim que ela aprendeu que errado não é amar o outro e sim deixar que o amor ao outro nos faça esquecer de amar a nós mesmos.

Então, se um dia você encontrar essa garota por aí eu te dou um conselho: não a deixe partir. Eu te garanto que ela pode mudar o rumo da sua vida, e para o bem. E ela anda pelos lugares mais comuns de se achar: na farmácia, na fila do supermercado, no curso de inglês, na livraria ou simplesmente tomando um açaí. Se você conseguir conquistar a confiança dela, ela te dará o seu coração em retribuição. Ela não vai te acompanhar em baladas mas será sua confidente, vai permitir que você conheça uma sensibilidade que talvez ninguém tenha conhecido. Você vai descobrir que a cara de séria dela esconde uma mulher-menina, brincalhona e que vai te fazer rir nos momentos mais inimagináveis. E ela vai querer dançar, mas só com você.  Dê a ela segurança e ela te dará o mundo.

Nat Medeiros

Fonte da imagem: Pinterest

NAQUELA ESQUINA

Andava distraidamente naquele dia como andava em todos os demais dias. Sem necessidade de pensar muito no que fazia. Afinal, eu era apenas uma pessoa comum, em um lugar comum, fazendo uma atividade que a mim era comum. Em dado momento me aproximei de uma esquina. Aquela esquina. Parei. Precisava olhar para os lados antes de atravessá-la. Foi quando olhei para a esquina de cima. O sinal de lá acabara de fechar. E você, era o primeiro da fila a esperar com seu veículo. Percebi que era você porque no momento em que olhei, você se assustou e virou o rosto, na vã tentativa de me mostrar que não me vira. Sua tentativa de disfarce acabou por te denunciar.

O sinal fechar no momento em que você seguia com seu veículo. Eu atravessar a rua no momento em que seu sinal fechara. Nossos olhos se cruzarem no momento em que eu, distraidamente, me preparava para passar por aquela esquina. O relógio marcando o mesmo tempo. A geografia marcando o mesmo lugar. Fiquei a pensar em quantos acasos foram necessários para que aquele acaso ocorresse. Talvez muitos. Ou nenhum. Talvez aquilo não significasse muito, afinal.

Por um momento, após te olhar por uma fração de segundos, estive titubeante sobre qual atitude tomar. Mas logo percebi que seguir em frente não era só a melhor como era também a única alternativa plausível.  E então atravessei a rua sem olhar pra trás, deixando ali um passado recente que se tornava cada vez mais distante.

Naquela esquina, nossas vidas, agora tão indiferentes uma a outra, se cruzaram mais uma vez. Mas elas não se tocaram e algo me disse que nunca mais se tocariam.

NAT MEDEIROS

Fonte da Imagem: Pinterest

UMA DOSE DE AMOR PRA CURAR UMA DOR

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E no meio do turbilhão, a vida me envia um pouco de paz. Quando perdi meu chão, você apareceu me oferecendo o céu. Você se lembra de todos os detalhes. Eu não me lembro de detalhe nenhum. Eu estava aérea… Mas me lembro de todas sensações. A sensação de estar segura. A sensação de estar com uma alma afim.

Você apareceu durante um vendaval em minha vida: quando eu descobri a verdade sobre alguém de quem muito gostei. E essa verdade me feriu fatalmente. Devido a fatos que prefiro me abster de citar, foi traumático pra mim. Era um momento que tinha tudo pra me fazer desacreditar do amor, mas você me abraçou de uma forma em que eu me senti protegida. Mesmo sem te conhecer tanto, estar ali naquele momento, ao seu lado, era o melhor lugar.

Você me chamou de Esfinge, pelo meu modo de te olhar, disse que leu Misto Quente de Bukowski e eu novamente fui ao céu. Não é todo dia que a gente encontra um cara de barba perfeita, que lê Bukowski e ainda cite páginas de poesia. Talvez você não tenha percebido, mas naquele momento eu tive certeza do que eu queria. O que eu queria estava bem diante dos meus olhos e eu me perguntei porque demorou tanto pra esse momento acontecer.

Falamos sobre Game of Thrones. Eu te dando spoiler sobre Brienne e Tormund e você dizendo que queria que ela ficasse com o Jaime. E ali você me ganhou de novo. Um homem sem medo de demonstrar sentimento. Se teve uma coisa que eu aprendi nesses últimos meses foi que homem que não demonstra sentimento é porque não gosta o suficiente ou porque não gosta o suficiente. E isso causa dor. E pra curar uma dor, só uma dose de amor.

Só que você foi muito mais do que uma dose. Porque uma dose acaba e você ficou. Quando dias depois te contei sobre o episódio traumático da minha vida, você disse: “Mulher, não tenha medo. Levante a cabeça e lute. Eu vou cuidar de você.” E aí que eu fui entender, você não estava comigo pelas metades, você estava comigo por inteiro.

O problema é a gente que, às vezes, se acostuma com pouco achando que é muito, mas quando cai em si percebe que na verdade não era nada do que imaginou. E enquanto nos apegamos àquele amor mais ou menos, que nos leva de forma mais ou menos, a gente acaba minando as chances de encontrar o amor pleno, aquele que a gente realmente merece. O que tem defeitos, sim, mas que também nos faz querer ser melhor, lado a lado, constantemente, diariamente.

Sobre aquele dia, em que a gente se abraçou pela primeira vez, eu aprendi que a gente nunca sabe sobre as barras que vai enfrentar nas próximas horas, mas também que a gente nunca sabe sobre a luz que vai aparecer no meio do caminho e iluminar tudo. Meu Sol. Sou sua Esfinge. Talvez só até a próxima semana. Mas quem sabe, quiçá, até a próxima Vida. Te quero beber em mil doses de amor.

Nat Medeiros

Publicado originalmente em: Superela

Fonte da Imagem: Pinterest

COMO SUPEREI UM PÉSSIMO CORTE DE CABELO E FIZ A TRANSIÇÃO CAPILAR

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Sempre tive o cabelo ondulado. Nem liso, nem cacheado e eu achava super difícil usá-lo naturalmente pela ausência de forma definida. Quando completei 16 anos fiz uma escova progressiva. O resultado me agradou, o volume diminuiu e o fio tomou uma forma lisa. Fui repetindo esse procedimento até por volta dos 22 anos. Aí decidi parar, pois apesar de o meu cabelo ser muito forte, ele estava cheio de pontas duplas. Sem citar que a cor dele clareou bastante também, chegando ao tom de castanho cobre.

Fiquei seis meses sem nenhuma química. Até que fiquei sabendo de um alisamento chamado recondicionamento térmico. Para eu fazer esse procedimento, eu precisaria estar há seis meses sem química e eu já estava. Então nem pensei duas vezes e fiz. O resultado foi maravilhoso, o cabelo ficou super liso e eu só precisaria fazer o procedimento de novo na raiz. Seguem fotos:

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Fiquei bem satisfeita mesmo. O problema é que eu também tonalizava o meu cabelo e isso causava um embaraço absurdo. Em todo banho eu gastava vinte minutos só para penteá-lo. Decidi mais uma vez parar com a química. Nisso meu cabelo já era enorme e eu tinha que ficar passando chapinha na raiz para deixá-lo uniforme. Segui fazendo isso por quase dois anos. O meu cabelo era todo reto e o contraste entre a parte natural e a parte lisa era bem perceptível.

A transição capilar

Foi então que em Agosto de 2015 eu tive a belíssima ideia de ir a um salão para que cortassem picado ou em camadas. Achava que assim seria mais fácil passar pela transição capilar. Ainda expliquei à cabeleireira (que eu já conhecia) como eu queria o corte e ainda levei uma foto para ela ter uma ideia exata.

Gente, quando eu olhei no espelho eu não acreditei no que vi. As pessoas no salão também notaram, pareciam pensar: “estava bem melhor antes”. Fiquei estática, sem palavras, só paguei a conta e saí de lá correndo. Cheguei em casa e olhei no espelho. Como eu queria voltar no tempo, viu. O que a cabeleireira fez no meu cabelo era irrecuperável. Eu tinha um cabelo imenso mas se eu fosse corrigir o erro, ele iria parar na altura do meu queixo e eu definitivamente não estava preparada pra isso. O cabelo, por ainda ser liso em sua maior parte, ficou com a aparência de espigado, umas partes ficaram muito curtas, outras ficaram bem maiores e na frente um lado ficou bem menor que o outro. Pra vocês terem uma ideia seguem as fotos (desculpem a qualidade ruim mas é porque tirei do meu celular).

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Isso abalou tanto a minha autoestima que no primeiro dia eu tive que tomar remédio pra dormir. Tudo que eu queria era acordar no dia seguinte e ver que tudo não passou de um pesadelo. Mas não foi pesadelo e só me restou ir cortando aos poucos pra ir acertando. Eu mesma fui cortando (reto, como eu gosto mais). Sempre fui eu mesma que cortei meu cabelo e depois disso tudo eu só confiava em minha própria mão. Mas mesmo cortando, ele estava me desagradando muito. Em Novembro de 2015 fiz um outro corte mas ele continuava desregular. Sem falar que eu ainda estava em transição capilar. Era um caos total: cada fio de um tamanho e com texturas diversas.

Então, em Janeiro de 2016, eu decidi cortar curto logo, deixar todo reto e de quebra tirar a parte que ainda tinha química. Confesso que mais uma vez foi sofrido. A última vez que eu tive cabelo curto foi quando eu era criança e a ideia do cabelão já estava associada à minha imagem e identidade (teve gente que nem me reconheceu mais). Mas, apesar da grande mudança, eu fui me adaptando principalmente porque aí ele estava natural, muito mais saudável e fácil de desembaraçar. Mas continuei usando chapa porque eu ainda achava que ele natural não era bonito

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A transformação

Em Julho de 2016 eu conheci, através do texto da Karla Lopes  no Superela, os procedimentos No Poo e Low Poo (Como Fazer Low Poo e No Poo?). Eu achava que era uma coisa de sete cabeças, que pesaria no meu bolso, mas estava muito enganada. Segui ambos procedimentos, intercalando, e os resultados foram maravilhosos. Entrei em alguns grupos no Facebook que abordavam tais temas e vi o quanto existem pessoas passando pela transição capilar, se amando e aprendendo a amar seus cabelos. Aprendi também algumas técnicas que deixam meu cabelo com formato mais definido e bonito, como a fitagem, e aprendi também sobre a importância de secá-lo com camisa de algodão e nunca secar com toalha, já que causa frizz.

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Hoje ele está maior e confesso que volta e meia uso chapa pra deixá-lo liso (conforme foto abaixo). Mas tenho confiança pra usá-lo natural. Quando não dá tempo de modelá-lo, não deixo de sair de casa por isso. Eu lavo e vou, saio com ele úmido mesmo. Estou aprendendo um pouco mais sobre liberdade, rs.

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No fim das contas, perdi muitos centímetros de cabelo mas ganhei autoestima, confiança e fios muito saudáveis. Foi fácil? Não! Foi muito difícil e tive dias horríveis após meu cabelo ser detonado em um corte desastroso. Mas peguei os limões e transformei em limonada.

Nat Medeiros

Fonte das imagens: acervo pessoal

Texto origanlmente escrito em: Superela

TODOS OS DIAS O SEU SILÊNCIO ME DIZ QUE EU FIZ O CERTO AO ME AFASTAR

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Eu sempre tive certeza que a decisão que eu tomei era mesmo a mais acertada. Mas às vezes, principalmente no início, eu me pegava me questionando: “E se…?”. E se eu tivesse feito diferente, e se eu não tivesse demonstrado tanto, e se eu tivesse dividido a atenção que eu oferecia a você com um outro alguém? E se eu tivesse sido menos exclusiva, e se eu tivesse te tratado como alguém sem tanta importância pra mim? E se eu tivesse te amado menos?

Nós nunca sabemos o impacto que alguém vai causar em nossas vidas até que abrimos a porta e deixamos aquela pessoa entrar. O fato é que eu quase fechei a porta pra você. Foi por muito pouco que não te ignorei como forma de finalizar aquele nosso primeiro contato. Quando você pediu meu telefone, eu tive o impulso de te excluir, mas ao contrário disso, te ignorei. Fiquei dois dias sem te responder, eu não sabia o que fazer. Por fim, num impulso, te mandei meu número já pensando nas desculpas que eu haveria de te dar para te ignorar sem culpa.

A vida nos surpreende e ela me surpreendeu muito quando causou o nosso encontro. Não foi no primeiro nem no segundo encontro que eu me apaixonei. Mas desde a primeira vez que conversamos pessoalmente, eu percebi que ali havia uma mente pensante e eu sempre me atraí muito por pessoas inteligentes. Ao te conhecer melhor, sentimentos surgiram. Com o tempo, evoluíram. Me envolvi, relutei, mas por fim me entreguei e  posso dizer que foi um caminho sem volta. Te amar menos era impensável, ter sido menos exclusiva do que fui não era alternativa pra mim. Eu nunca me envolvi com mais de uma pessoa simultaneamente. E agora que eu amava alguém eu iria fazer isso? Esse tipo de jogo não cabia na minha vida. Se eu te perdesse, que fosse por amar demais e nunca por valorizar de menos. Eu não estava disposta a errar. Não com você.

Mas nenhuma relação depende apenas de uma só pessoa. E com o tempo eu fui obrigada a encarar a verdade: você não queria ser amado, pelo menos não por mim. E amar alguém que não quer ser amado é mais que arriscado, é atestado de sofrimento. Apesar de tudo, eu ainda estive disposta a ficar ali. A tentar transpor barreiras. Mas de onde eu tirava obstáculos, você construía muros. Nós dois não tínhamos os mesmos objetivos, um dia você disse. E você disse nada menos que a verdade. Eu terminei aquilo porque não havia caminho mais acertado que o fim.

Por mais que eu tivesse certeza desta decisão, como eu disse, às vezes me perguntei se aquilo era o melhor (era o mais certo, mas seria o melhor?). Procurei nas músicas, nos livros e nos astros resposta para os meus questionamentos. Em vão. Nada me respondia. Meses se passaram sem que eu encontrasse esclarecimento. Foi só então que eu percebi que meses se passaram e você se manteve calado. E o seu silêncio dizia tudo, ele era a resposta que eu precisava. O seu silêncio me mostrou todos esses dias que eu fiz o certo ao me afastar.

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest