MINIMALISMO: O QUE ME FEZ QUERER TRANSFORMAR A MINHA VIDA

menos é mais.

  • Tudo que é excesso nos desgasta

O minimalismo é um estilo de vida que vem ganhando notoriedade no mundo ao nos fazer repensar o nosso modo de viver. O objetivo é viver menos para coisas e mais para experiências. Não é sobre deixar de consumir, é passar a ter um consumo consciente. Não é sobre deixar de se conectar ou se relacionar com as pessoas, é sobre escolher melhor os nossos relacionamentos, sobre só se conectar ao mundo digital o suficiente, sobre assumir apenas compromissos que nos façam bem e nos levem à evolução. Agora que todo o deslumbre das redes sociais e do consumismo começam a nos trazer desgaste e infelicidade em determinados momentos, somos levados a nos questionar: “Precisamos mesmo de tantos amigos, de tantas roupas e sapatos, de tantos compromissos, de tantos likes e visualizações? O nosso tempo é o nosso bem mais precioso, para onde ele está indo? Investimos a maior parte dele para ganhar dinheiro e comprar coisas que nos fazem ou não nos fazem feliz?”.  São esses questionamentos que começaram a me alfinetar. Eu não descobri o minimalismo por  acaso, descobri por necessidade. No início do ano comecei a apresentar algumas insatisfações com a minha vida, são elas:

  1. O alto número de demandas nas redes sociais. Muitas pessoas me chamando para conversar ou pedir conselhos. Tudo bem você conversar duas ou três pessoas por dia através das redes. Mas quando vinte, trinta pessoas te chamam ou mandam vídeos, áudios e textos, isso se torna bem complicado. Um dia eu parei para contar e se eu fosse responder todas as mensagens, ouvir todos os áudios, ler tudo que me chegava e ver todos os vídeos que me enviavam, eu teria que pedir contas do meu emprego pra poder atender a tudo isso.
  2. O alto número de roupas e objetos que eu possuía. Essas coisas sempre ocuparam muito espaço no meu guarda-roupa. Esporadicamente eu doava quantidades enormes de coisas, até mesmos roupas que eu nunca cheguei a usar. Mas eu escoava isso, porque logo em seguida em comprava mais coisas. Isso tudo se tornou uma preocupação pra mim. “E se roubarem as minhas coisas?”, “E se um dia eu for embora da cidade? Não vai ter como eu levar tudo! Acho melhor eu nem ir porque não quero perder minhas preciosas coisas…”.

Foi bem nessa época que eu li o livro “Clube da Luta”. O livro faz um questionamento bem interessante sobre o consumismo, que pode ser sintetizado em uma frase gloriosa: “As coisas que você possui acabam possuindo você”. Eu super concordei com a frase, mas só isso. Porque eu não estava nem um pouco aberta a adotar a filosofia de vida relatada no livro. Abrir mão do conforto e da segurança definitivamente não eram opção pra mim.

  • O Começo da mudança

Mas, diante essas insatisfações, eu fui fazendo algumas mudanças. Parei de estar tão disponível nas redes sociais. No meu Facebook pessoal até pedi que as pessoas evitassem me chamar no Messenger e Whatsapp. Também fiz uma limpa em meu guarda-roupa. Me desfiz mesmo daquelas roupas que eu nunca tinha usado e achava que ainda usaria um dia. Fiz um brechó para as amigas e consegui cerca de 500 reais com roupas que estavam paradas no meu guarda-roupa. Só que parte desse dinheiro eu acabei usando pra comprar mais roupas, ou seja, eu escoei meu estoque (o que não foi nada minimalista). O lado bom foi que eu acabei comprando somente roupas que tinham muito a ver com meu estilo, que é mais sóbrio (metade das novas roupas eram cinza, a outra metade se dividiam entre preto e branco). E como eu estava praticamente renovando o meu guarda-roupa, eu decidi que compraria um maior, para poder caber as coisas de modo mais organizado e espaçado.

  • O desgaste com as redes sociais e a experiência da morte

Foi nessa época da minha vida também que a minha mãe teve uma piora em seu estado de saúde. Foram três meses vivendo em um hospital. Minha vida se resumia a: casa, trabalho, hospital. Não foi fácil. Eu tive que dar uma pausa nos meus textos. E expliquei o motivo à quem me lia através das redes sociais. Foi bem bacana porque muitas pessoas me mandavam diariamente mensagens de carinho, desejando força. E eu sempre tive o cuidado e a consideração de responder. Mas hoje vejo que me preocupar em sempre responder às mensagens não foi bom pra mim naquele momento. Porque as quase duas horas diárias que eu gastava respondendo às mensagens, poderiam ser dedicadas à minha mãe. Infelizmente ela faleceu no fim de julho e é algo que hoje não posso mudar. O que me conforta é que ela confidenciou antes da sua morte à três ou quatro amigas que estava muito feliz comigo, pois eu estava cuidando muito bem dela. Mas isso não me tira a certeza de que eu poderia ter vivido mais aquele momento. Eu poderia ter feito ainda melhor.

  • Vou comprar um carro! Mas pra quê mesmo?

Após a morte da minha mãe, eu comecei a me questionar: quero continuar vivendo na cidade? Sei que outros lugares poderiam me proporcionar mais oportunidades. Mas tudo ficava no imaginário. Eu não tinha nenhum plano real. Foi nessa época também que eu passei a ter possibilidades concretas de comprar um carro e esse foi se tornando meu plano principal. Voltei para a auto escola e coloquei metas de economia na minha vida, o que foi bem bacana. Sim, ter um carro era o meu objetivo agora. Isso é interessante porque lá em casa praticamente não tivemos carro. Isso me deixava muito frustrada. Eu via meus colegas com pais que tinham carro, meus tios, conhecidos, todo mundo! E não eram raras as vezes em que nós, lá em casa, deixávamos de ir a algum lugar ou evento pela falta de um carro. Mais tarde, vinham as cobranças dos amigos e colegas: “Você tem que juntar dinheiro pra comprar um carro logo”. Sim, eu tinha que juntar dinheiro pra comprar um carro logo. Nisso, foram mais de 25 anos sem carro. Frustante, não é? Mas agora finalmente eu teria condições de comprar um! E foi justamente quando essa possibilidade veio, que eu me perguntei: “Pra quê mesmo eu quero um carro? Porque eu vivi a vida inteira sem um e sei viver muito bem sem. Não sinto falta do que praticamente nunca tive. Além de não ter falta, não sinto necessidade pois moro pertinho do trabalho e dos lugares dos quais mais gosto de ir, sem citar que hoje temos o bom e acessível Uber. Minha casa não tem garagem e eu teria que me mudar de um lugar que é meu, em uma excelente localização, pra ir morar de aluguel só pra poder ter um carro do qual não tenho necessidade. Carro precisa de manutenção, requer grana, necessita lugar para estacionar, traz preocupação e como pontuou um amigo: “Poderia despertar ainda mais a minha ansiedade”. Comprar um carro também não seria a melhor escolha se eu penso em mudar de país no ano que vem, por exemplo. Isso somente travaria meus planos.

  • O que a sociedade quer   X   O que eu quero

Eu caminhei a vida toda para chegar ao momento em que a sociedade dita como indicador de sucesso para finalmente descobrir que esse lugar não atende às minhas expectativas e nem melhora a minha qualidade de vida. Talvez um carro melhore muito a qualidade de vida de quem dependa de transporte público, dependa de terceiros ou atravesse longas distâncias, mas esse não é o meu caso. Definitivamente não! Inclusive há estudos que mostram que determinadas gerações não se interessam tanto em comprar casa ou automóveis, preferem adquirir experiências. Essa diferença de interesse também é muito comum entre culturas e países diferentes. Eu não estou falando que comprar carro é besteira. Mas eu parei de ouvir a sociedade para me entender melhor e vi que os meus anseios diferem um pouco do padrão.

  • Enfim, o Minimalismo!

E foi neste justo e iluminado momento que eu descobri o “Minimalismo”, que é o estilo de vida onde o “Menos” é considerado “Mais”. Aqui não se fala de não consumir, mas fala do consumo consciente: Eu vou comprar só coisas que eu gostarei muito de usar. Eu vou manter na minha casa e na minha vida somente o que é essencial. Bacana, não é? E isso não é sobre o lado material da vida, mas também o lado virtual, social e tantos outros. “Só vou aceitar compromissos em que quero realmente ir”, porque quando dizemos por educação um “Sim” a algo que não queremos muito, estamos dizendo um “Não” a nós mesmos ou a algo que queremos muito. Minimalismo é ter consciência de quem somos. Não é sobre ter dois pares de sapato. Não existem regras. Se pra você é importante ter 12 pares de sapato, ok. Mas que você tenha realmente pares de sapatos que você goste muito de usar, e não pares de sapatos que são lindos mas machucam, que são lindos mas você não usa, que são lindos mas que não combinam mais com o seu estilo. Minimalismo é você reduzir coisas, pessoas, situações e ficar apenas com o que é essencial e te faz muito bem. Mais tempo, mais afeto, mais relações genuínas e profundas, mais grana. Minimalismo no meu conceito é: “Ei, eu quero mesmo ir nesse ritmo, eu quero mesmo estar nesse pódio, isso realmente me traz felicidade e paz?”.

  • O Destralhe – Desfazer-se de coisas que não são essenciais

Acabei percebendo que eu já tinha tendências minimalistas mesmo antes de descobrir esse estilo de vida. Até mesmo as minhas roupas, que se reduzem a jeans, branco, preto e cinza (embora isso não seja uma regra no minimalismo, mas de fato são cores mais fáceis de serem combinadas). A diferença é que depois que descobri esse estilo de vida, eu me conscientizei ainda mais sobre a necessidade e a vantagem de ter somente o que é essencial. E a  mudança é gradual. Eu me desfiz de cerca de 1000 (isso, MIL) objetos nesse último mês. Estou mais leve. Eu li em algum lugar que cada coisa que possuímos nos gera preocupação e requer cuidado. Quanto menos preocupação tivermos, mais livres somos. Ainda há mais coisas das quais quero me livrar. Vou abrir uma lojinha no Enjoei e fazer um novo bazar. Compras daqui pra frente serão planejadas e eu vou priorizar a qualidade e a funcionalidade (lembre-se, minimalismo não é deixar de consumir, é consumir coisas úteis, que vão apresentar boa durabilidade). Um guarda-roupa maior já não é mais o que quero. Meu objetivo agora é reduzir ainda mais o meu armário atual.

  • O Destralhe Virtual e o desejo por apenas aquilo que nos é essencial

Eu também fiz um destralhe virtual. Apaguei do minha nuvem cerca de 4 mil fotos que não são essenciais pra mim. Deixei de seguir cerca de 200 pessoas no Instagram, que são pessoas que eu não conhecia muito ou não tinha muito contato. Apaguei aplicativos acessórios, arquivos que não me servem mais. A experiência da morte da minha mãe me mostrou que não levamos nada dessa vida. Eu quero ter o essencial para viver, para ter mais liberdade de ir e vir, de mudar de cidade, de estado ou de país. Eu quero ter o essencial para viver pois já tive a minha casa assaltada quando morei no Rio Grande do Sul e foi traumatizante perder tanta coisa de valor. Eu quero ter o essencial para viver porque passei a vida toda batalhando para adquirir mais coisas mas percebi que o lugar onde eu queria chegar não é mais o lugar aonde eu quero ir agora. Na minha adolescência eu sofri por não ter roupa para ir para a escola. Eu tinha que esperar a minha irmã chegar da aula no fim da manhã para eu usar a calça que ela tinha usado e ir para a escola à tarde. Quando me tornei salariada, eu comprei tantas e tantas calças para nunca mais passar por aquilo, mas hoje vejo que são somente quatro calças que eu amo usar e então serão quatro calças que eu vou ter no meu guarda-roupa.

  • O Acessório   X    O Essencial

O que eu tinha de mais importante nessa vida eu perdi, a minha mãe. Coisas não têm mais peso em minhas decisões nem importância além do que é devido. Eu quero viver bem, ter segurança, qualidade de vida e lutar pelos meus sonhos, e não somente abrir mão de boas experiências para pagar um carro ou qualquer outra coisa que não me são necessários neste momento. Situações, objetos, roupas, pessoas que não me trazem bem-estar e não são primordiais, não mais cabem no meu mundo. Eu não mais quero o acessório, eu quero somente o essencial.

Nat Medeiros

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Desde que nossas órbitas se tocaram

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Não houve tempo para despedir. E pra ser sincera eu acho que nem houve tempo direito pra te sentir. Não da forma como eu gostaria. Uma vida com você teria sido pouco. Uma era e uma galáxia também não teriam proporcionado tempo e espaço suficientes. Tudo isso era aquém do que eu pretendia. Era preciso muito mais para eu considerar razoável.

Você certamente foi o homem mais quebrado que eu conheci. Quebrado porque eram muitas peças, como um quebra-cabeça quase impossível de ser montado. E eu, também muito quebrada, me apaixonei por cada pedaço seu. Mas sabemos que misturar as peças de dois quebra-cabeças tão complexos, dificilmente daria certo. Como separá-las depois do depois? Impossível se eu nem mais me lembrava de como era o antes.

Cada dor que você aparentava sentir, cada dúvida, cada pensamento, cada insatisfação com a vida, cada questionamento… todos os seus cacos ultrapassaram a superfície da minha epiderme e ocuparam um lugar muito mais profundo, que nem mesmo eu sabia que existia. A minha dificuldade seria retirar cada um dos seus cacos quando agora eu suspeitava que eles já eram parte de mim. Até hoje, mesmo depois de tanto tempo, eles estão aqui.

Eu te disse tanto, mais do que disse a qualquer um. Simplesmente porque eu senti mais do que eu senti por qualquer outro. Ainda assim, muito ficou por dizer. E essas palavras me rondam incessantemente como feras em torno de uma presa já vencida. Eu sei que não vou ter paz, mas dizê-las já não faria mais sentido quando elas se referem a um passado cada vez mais distante.

Para então não pronunciar o que não deve ser pronunciado, eu toco em teclas que formam palavras que se aproximam vagamente do que eu deveria ter dito tempos atrás, quando por um acaso qualquer as nossas órbitas se tocaram, modificando a atmosfera de tudo aquilo que eu respiro. Noites, semanas e meses se passaram e eu tento aceitar o fato de que o ar que respirei junto a você um dia eu não vou respirar de novo.

Nat Medeiros

Fonte da imagem: Pinterest

 

A perda daquilo que não se atinge

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Eu sei como é desesperador se pensar que vai perder uma pessoa. Como dá vontade de gritar e fazer qualquer tipo de artimanha para que aquela pessoa fique. A gente se torna irracional, inventa histórias, tudo isso para não perdê-la. Mas a gente perde, e sabe por quê? Porque na verdade a gente nunca teve. A gente nunca tem ninguém e mesmo assim a gente sofre desesperadamente quando alguém que a gente ama vai embora.
Mas por quê a gente sofre por perder o que não se tem? Talvez porque perder o que não se tem seja perder duas vezes. A gente sofre mesmo antes do fim. A gente perde quando percebe que o sentimento não é recíproco. A gente perde quando percebe que ama sozinho. A gente perde quando o outro nãos nos inclui na sua vida, nos seus planos ou mesmo no seu fim de semana. A gente perde a cada dia que passa e a cada noite também. Não há sossego, não há trégua nessa dor da perda daquilo que não se atinge. É cruel. E o ápice da dor nos mostra que talvez a gente tenha começado a perder aquela pessoa no momento em que ela tenha entrado em nossa vida.

 Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

O ADEUS É INTERROGAÇÃO (E RETICÊNCIAS)…

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Mais difícil que dizer adeus, é manter esse adeus. O adeus não prevê a intensidade da saudade que virá e muito menos por quanto tempo a falta se estenderá. O adeus é vazio e representa um ponto final. Mas a vida é muito mais complexa do que pontos finais. Adeus é ao mesmo tempo a dureza incômoda da interrogação e é também as conflitantes e controversas reticências. Adeus é seguir mesmo sem saber. Sem saber se o amor deixará de existir, se a dor da falta nos dará trégua, se o coração acabará por se acalmar. Adeus é um tiro no escuro que a gente espera desesperadamente que acerte o alvo. O alvo do adeus é o esquecimento. Mas é tudo tão incerto e não há garantias como aquelas que nos oferecem quando compramos um smartphone novo. O adeus é se apoiar na razão, aliás, é muito mais do que isso, adeus é apostar na razão, mesmo sabendo que a qualquer hora o coração pode pôr tudo a perder, ou a ganhar, ao trair o nosso propósito inicial e tentar reverter a decisão que até então era a mais acertada.

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

EU QUERO TE DIZER O QUE SINTO MAS EU FAÇO JUSTAMENTE O CONTRÁRIO

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Ontem eu vi você bater a porta e isso partiu meu coração.

Eu sei que foi eu quem disse que deveríamos nos afastar porque éramos incompatíveis e um relacionamento entre nós era improvável. Mas ontem, pela primeira vez, eu quase demonstrei meus sentimentos. Eu quase disse que sentia sua falta, eu quase voltei atrás, eu quase te falei a verdade e mostrei quem eu era. Mas ao contrário disso, eu me afastei por completo pois percebi que você havia se cansado e partido para outra. E foi justamente por isso que eu fugi, sem deixar vestígios, sem me despedir, sem me explicar, sem pronunciar uma palavra sequer, pois uma palavra sequer poderia me trair e fazer você descobrir a verdade.

E a verdade tem sido um tormento pra mim. Os meus sentimentos têm sido um tormento pra mim. E eu fujo mas eu sei que é em vão. Eu desapareço mas o que eu sinto não desaparece. Eu me calo mas o que eu sinto não se cala.

Eu luto contra mim mesma e perco todos os dias. No fundo eu quero te dizer o que eu sinto mas eu faço justamente o contrário.

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

A CERTEZA DA SUA AUSÊNCIA PELO RESTO DOS DIAS QUE ME VIRÃO

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A casa que já era grande, agora se tornou imensa. Tudo que a ocupa é silêncio, é vazio e eu não deveria dizer isso, mas me sinto sufocada de dor. A única coisa que ficou é a certeza da sua ausência pelo resto dos dias que me virão. No atestado de óbito: insuficiência respiratória aguda, pneumotórax espontâneo, hipertensão pulmonar, esclerose sistêmica, pneumonia, doença do refluxo gastroesofágico. O quanto você sofreu nesses últimos quatro anos e principalmente nesses últimos três meses. Mesmo assim, a sua vontade de viver era imensa, você fazia mil planos de cursos que ainda iria ministrar. Ainda na quarta passada me disse: “Segunda-feira tenho muita coisa pra fazer, preciso pegar os papéis da minha aposentadoria”. No entanto, hoje é segunda e você não está. Eu tento dormir pra esquecer, mas cada vez que eu acordo me vem um desespero tão grande por saber que não é um pesadelo e que a realidade bate à minha porta. Dói muito saber que se eu chamar “Mãe” não haverá mais respostas. Dói muito saber que ontem eu perdi a minha condição de filha. Dói muito ver a mesa de seis lugares vazia. Dói lembrar do seu sofrimento desde Maio e que você tinha medos que não ousou me confessar. Você tentou me poupar de todas as formas.

Na madrugada de quinta eu sonhei com a minha mãe em pé, grávida. Eu acordei tão triste porque há meses eu não a via em pé, andando. E ela sempre foi tão ativa até a doença. Os últimos dias foram de delirium devido a gravidade do quadro. Você pouco conversava. Suas últimas palavras lúcidas ouvidas por mim foram no sábado à tarde, quando disse às visitas no quarto do hospital: “Vocês estão conversando muito, preciso descansar”. A madrugada de sábado para domingo foi cruel pra você. No domingo, assim que eu soube, voltei ao hospital. Você já estava inconsciente. Sabíamos que não tinha mais jeito. Mas Deus nos deu a oportunidade da despedida. Pudemos ficar com você no quarto a todo momento (e eu agradeço imensamente aos espíritos superiores por isso). Você estava cercada de inúmeras pessoas que a amavam. Quando percebi que sua respiração se tornou lenta, te abracei mais forte enquanto sua amiga e irmã do coração, Marly, orava. Como disse Marly, aquele foi o nosso momento, de nós três, e foi ali que você partiu de um modo tão suave que eu nem percebi. Marly quem disse: “Ela partiu, e ela foi em paz”. Isso me acalentou um pouco porque dentro de mim eu sei que eu poderia ter feito muito mais.

Você dizia que não queria ser velada, que não queria que as pessoas a vissem morta, coisa que eu também sempre disse, afinal, a vaidade sempre foi uma das nossas características mais marcantes. Mas quando morreu, estava tão linda. Tão maravilhosa. Não foi nem preciso que a funerária a maquiasse pois você mesma fez sua maquiagem definitiva. Você era sua própria modelo e foi a pessoa sem vida mais linda que eu já vi. Quase 66 anos de idade, sem nenhuma ruga, com uma pele tão lisa, tão reluzente. Mãe, como você é linda. Todos que se despediram foram unânimes em dizer o quanto você estava maravilhosa. Uma rainha. Altiva. Magnânima. Até o último momento.

Você me deu tantos exemplos de como ser forte, lutadora e principalmente: independente.  Você me criou pra estudar, pra viajar, pra lutar pelos meus sonhos e eu te agradeço muito por isso. Você deixava de fazer tudo pra pagar sozinha a escola de três filhos. Você deixou de realizar os seus sonhos, quando tinha saúde, pra nos proporcionar melhores condições no futuro. Você estudou italiano por anos para conhecer a Itália, sonho este que foi interrompido pela esclerose. Me dói isso. Mas eu quero que você não se prenda ao plano terreno, mãe. Você fez a sua parte como ninguém mais faria.

Obrigada, meu Deus, por ter me dado a oportunidade de trocar as fraldas de uma rainha, por ter aprendido a dar alimentação na sonda, por tê-la carregado em meus braços e por ter retribuído um pouco do MUITO que ela fez.

Vou ficar com as lembranças e me apoiar nelas. Os nossos dias mais felizes. Nós duas, pelas estradas do Rio Grande do Sul, ouvindo Frank Sinatra cantar Yesterday. Ainda estamos lá. Eu sei. (31/07/2017)

Nat Medeiros

O QUE APRENDI COM UMA DOENÇA AUTOIMUNE

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Foi em um dia de 2012 que eu tive um sonho ruim e acordei pensando na minha mãe. Ela havia se mudado recentemente para o Pará. Foi passar uns dias e devido às boas oportunidades de trabalho, por lá ficou. Minha mãe sustentou três filhos sozinha com sua profissão: esteticista. A vida dela era voltada para melhorar autoestima das pessoas. Um dos seus trabalhos mais significativos era a maquiagem definitiva. Uma técnica que deixava mais bonita sobrancelhas, contorno dos lábios e também reconstruía os mamilos, no caso daquelas mulheres que tiveram câncer de mama. Ela foi a primeira pessoa a trabalhar com essa técnica aqui na nossa cidade em Minas Gerais, ainda na década de 80.

Em Abril de 2013 eu tive um outro sonho ruim e acordei com a certeza de que algo não estava bem com ela. Não falei com ninguém sobre o sonho. Mas liguei pra minha mãe pedindo que ela voltasse pra Minas. Ela voltou, e como estava com uma tosse seca incessante e com a pele escurecida, fez exames. As suas mãos também estavam mais rígidas e mudavam de cor com o frio. Em uma visita à nossa cidade, a minha irmã, que é médica, olhou os resultados dos exames e disse: “Mamãe está com alteração no FAN. Está com esclerodermia (esclerose sistêmica)”.  Um outro médico, especialista da área, confirmou. Rapidamente visitei vários sites em busca de respostas. Esclerose Sistêmica é uma doença autoimune pouco conhecida e de difícil diagnóstico. O tecido conjuntivo sofre uma inflamação e por consequência ocorrem alterações na pele, vasos sanguíneos, nos músculos e nos órgãos internos. Há um acúmulo de colágeno que causa tudo isso. Há o tipo sistêmico, que afeta a pele, órgãos e sistemas internos do organismo e a localizada, que afeta determinada área da pele.  Minha mãe foi diagnosticada com o pior tipo: o sistêmico. Sentia dores, falta de ar ao andar, dedos enrijecidos, pressão alta, entre outros inúmeros sintomas. A esclerose sistêmica mudou a sua vida. Completamente. Mudou a sua vida inclusive esteticamente. Minha mãe sempre foi muito vaidosa e ativa. Sempre se alimentou de coisas saudáveis. E até sua alimentação foi afetada, algumas frutas ou legumes passaram a ser proibidos em seu cardápio. Uma das coisas que ela mais amava era comer abacaxi. Eu nunca mais vi a minha mãe comer abacaxi pois nas vezes que ela arriscou comer, os efeitos foram muito ruins ao seu estômago. Como a esclerose sistêmica também muda muito a aparência, era muito comum alguém encontrá-la na rua e dizer: “Nossa, mas você está diferente”. E isso me doía e revoltava. Porque eu via o quanto fazia mal à minha mãe ouvir isso. Eu ficava impressionada com a falta de delicadeza das pessoas. Minha mãe sabia que sua aparência tinha mudado e não precisava que ninguém te dissesse isso. A doença também afetou a nossa vida financeiramente. Ela passou a tomar mil e um remédios. Cada um mais caro que o outro (e cada um com mais efeito colateral que o outro). Alguns ela conseguiu sem custo, outros, não.

Minha irmã que trabalhava e fazia especialização no Rio passou a trabalhar mais para dar conta. Cada dinheiro que entrava lá em casa era para amenizar os efeitos da doença. Amenizar, porque não tem cura. Não tem cura e é o tipo da doença que hoje você está bem mas amanhã você pode não estar nada bem. Eu desisti de explicar isso para as pessoas. Sei que elas me perguntavam por bem: “Oi, Nat, como sua mãe está?” Mas isso era muito relativo e até dolorido de responder. Não havia uma resposta certa. Era um assunto que eu preferia evitar.

O pulmão da minha mãe foi o mais afetado, ela não tinha fôlego e suas tosses às vezes duravam o dia todo. A noite toda. A esclerose afetou toda nossa a vida. Não é nada fácil conviver com a doença, não é nada fácil você ver uma pessoa da família passar por tudo isso e saber que não tem cura, só tratamento e que o tratamento às vezes tem efeitos nocivos. Por essas e outras eu digo que até hoje a minha mãe não aceitou bem a doença. Há dias piores que os outros, o emocional é muito afetado também.  Mas ela não se entrega e uma coisa que foi e é muito importante nesse processo todo é: ter algum projeto, ter um objetivo na vida, um sonho, uma motivação. O sonho da minha mãe sempre foi conhecer a Itália e mesmo a doença ter tornado esse sonho mais distante financeiramente e fisicamente devido às suas limitações, ela continua estudando italiano. Ela estuda italiano sozinha há mais de dez anos. Isso a mantém viva. Isso faz com que a sua vida tenha um sentido muito maior que um exame, um diagnóstico e algumas caixas de remédio. Mas acho que o mais importante de tudo foi o trabalho. Como eu disse, a vida da minha mãe foi dedicada à elevar a autoestima das mulheres através de procedimentos estéticos. E ela, mesmo com limitações, continuou. Havia dias em que ela se entristecia por sua aparência mas era só chegar uma cliente querendo fazer a maquiagem definitiva na sobrancelha que a minha mãe se alegrava. Tirava fotos do antes e do depois e publicava nas redes sociais o resultado. Deixar as mulheres mais bonitas a mantinha mais viva também. E isso era tão nítido que havia dias em que ela tossia o tempo todo mas quando chegava alguma cliente a sua tosse diminuía. Nem sei se ela percebia isso mas trabalhar era um dos seus melhores remédios. E nesse tempo todo de esclerose sistêmica não foram poucas as vezes em que eu a via trabalhar inclusive nos sábados e nos domingos.

Um dia eu cheguei onde ela atendia suas clientes e me deparei com uma luva cirúrgica cheia de água, parecendo um balão. Achei curioso mas não falei nada. Nos outros dias voltei a encontrar luvas com água dentro, aí decidi perguntar o porquê da luva preenchida com água. Então ela me explicou e eu entendi o significado do trabalho em sua vida e a força que ela tinha para não deixar de trabalhar devido sua limitações. Ela enchia luvas com água quente sempre que iria atender clientes pois devido a doença os seus dedos ficaram mais rígidos e a água quente amenizava esse efeito, facilitando que ela exercesse o seu trabalho.

O seu amor pelo trabalho é tão grande que ela o concilia com a doença. De tempos em tempos ela vai à São Paulo se consultar com um médico que é referência na área, o Percival. E ela teve uma ideia muito bacana: toda vez que ela ia a São Paulo se consultar, ela passou a fazer algum curso por lá na sua área de atuação. Isso permitiu que ela atendesse ainda melhor às suas clientes. Aumentou sua rede de contatos, fez amizades e sempre é recebida com cuidado especial no lugar onde fica hospedada. Pessoas maravilhosas nos são enviadas todos os dias, das mais diversas formas.

E ela, que sempre se perguntava o porquê de ter essa doença, descobriu que não era a única. Há algum tempo, eu dei um smartphone a ela e ela aprendeu a usar as redes sociais. Entrou nos grupos de pessoas que também tinham a doença e ali conheceu histórias de quem passava por dificuldades semelhantes, pessoas que aprendiam a ser fortes juntas, compartilhando suas experiências, compartilhando informações sobre remédios, consultas, exames, notícias e acima de tudo: compartilhando força. O paciente descobre que além de ter que encontrar força, ele precisa cultivá-la diariamente. Ele precisa cultivar força quando o corpo dói, quando a aparência muda, quando os olhares curiosos o perseguem, quando perguntas ou constatações indelicadas são ditas, quando o preconceito emerge e quando a falta de conhecimento surge. Precisa cultivar força para se aceitar. E acima de tudo para não se entregar. E precisa manter vivo aquilo que o move: um sonho, um aprendizado, um trabalho, um curso. Claro que respeitando as suas limitações. Porque são essas coisas que fazem com que ele veja que a vida vai muito além de um diagnóstico. A vida não é só o corpo físico. Na verdade, a parte mais bonita da vida é intangível: é o sentimento, é a alma, é o sonho, é o amor, é a mão que nos é estendida. Eu quero desejar do fundo do meu coração muita luz a todas as pessoas que estão enfrentando uma doença autoimune, pois elas lidam diariamente com incertezas e preconceito.

E a minha mãe, a quem nem sempre eu sei demonstrar sensibilidade e paciência, se tornou pra mim um exemplo de força, de fortaleza, de transcendência, um exemplo de que o impossível é possível.  Ela é muito mais que uma mulher que tem esclerose sistêmica. Ela é uma mulher que, mesmo enfrentando tantas lutas e limitações, continua cumprindo sua missão e contribuindo positivamente para a autoestima de centenas, milhares de mulheres mesmo quando a sua própria está afetada, porque a doença atingiu os seus dentes e agora ela só tem coragem de sorrir sob uma máscara.

E enquanto eu reclamei de cansaço, ela estava em cima de uma cama de um hospital, tomando mais uma dose de um forte remédio, ligando para uma cliente e tranquilizando a sua cliente, dizendo que em breve estaria atendendo novamente. E toda vez que a vida me dá um “Não” e eu tenho vontade de desistir, eu lembro que a esclerose diz “Não” à minha mãe de todas as formas possíveis, mas ela, guerreira e rainha, transforma o “Não” em “SIM”. Ela me ensina o que é ESPERANÇA.

 

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

(Escrito em Março de 2016)

OS DIAS MAIS DIFÍCEIS


Os dias menos difíceis são justamente aqueles em que menos entendo a morte, ou em que mais a entendo erroneamente. Como apenas uma breve despedida. Como se você fosse voltar pra mim e pra nossa casa a qualquer instante. E sou quase capaz de ouvir a sua voz derrotar esse silêncio que se instaurou dentro e fora de mim. Os dias mais difíceis são aqueles em que entendo a morte tal qual é: definitiva, criando a impossibilidade de um contato onde até pouco tempo era cotidiano. Eu tento me agarrar às últimas lembranças e a suas últimas palavras, mas sei que o tempo virá, implacável, tornar as memórias que até então são tão vivas, cheias de cinzas. 

Nat Medeiros 

Fonte da imagem: Pinterest