Fragmentos de Inverno

fragmento
substantivo masculino
  1. 1.
    pedaço de coisa que se quebrou, cortou, rasgou etc.
  2. 2.
    parte de um todo; fração.
inverno
substantivo masculino
  1. 1.
    estação mais fria do ano, que se situa entre o outono e a primavera.

21 de Junho de 2018, Inverno

Errada por tentar de novo. Errada por acreditar uma vez mais. Errada por dar os mesmos velhos passos esperando um novo final. Errada. Não há justificativas que amenizem o meu erro de seguir o coração repetidamente. Esse coração forte e teimoso mas extremamente frágil que eu trago no peito.

Errei ao novamente me deixar levar pela direção contrária da razão e do bom senso. Eu queria poder dizer que com todo erro se aprende, mas a única constatação é que a cada vez que eu fui, em mais pedaços eu voltei. Pedaços esses que já não sou capaz de juntar.

Eu olho por essa mesma janela onde juntos, uma vez, há muito tempo, visualizamos um horizonte e mais do que um horizonte, vislumbramos um futuro e hoje apenas nuvens me cercam, me impossibilitando a visão de um todo. Meus dias se repetem sem surpresas e sei que, distante, um novo mundo se abre pra você. E preciso confessar, isso ainda é difícil pra mim. Olhar pela janela é difícil quando sei que apesar de o Universo ser imenso, o que eu sinto por você não tem lugar.

E o silêncio me acompanha juntamente com a falta de respostas. Eu procuro em músicas, sonhos, vinhos e previsões de horóscopo algo que me conforte quanto a essa separação e a esse silêncio. Mas parece que nada é suficiente para explicar uma pessoa que parte e um sentimento que fica. Por que nosso encontro foi sucedido de desencontros? Não era mais fácil nada disso nunca ter tido um início? Mas o Universo onde não cabe o que eu sinto é o mesmo Universo que se mantém em silêncio enquanto perguntas ecoam dentro e fora de mim. Sem respostas, nesse inverno frio que hoje se inicia, apenas constato que o amor é sentir muito e mesmo assim, quase sempre, não saber de tudo…

Escrito por Nat Medeiros

Fotografia: @Jumpsweet

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Minha liberdade é literal

As pessoas que não são livres, vão espalhar boatos. As pessoas que não são livres, vão procurar vestígios. Vão formular hipóteses e se ocupar da vida alheia.Tudo em vão. Quem escolheu viver com liberdade não se importa com a opinião de outrem. Principalmente daquele que não lhe representa nada. As pessoas que não são livres, vão se ofender com sua liberdade de ir e vir, com sua escolha de não viver roteiros pré-estabelecidos, rótulos ou qualquer condicionamento social. Eu aprendi que a liberdade da alma ofende quem é preso na mesquinhez e/ou no medo de viver o desconhecido.
Pois que se ofendam. Que se doam. Que se incomodem. Porque enquanto existem aqueles que temem ser diferentes e existem aqueles que temem ser iguais, eu sou da turma daqueles seres ímpares, cujo único temor é não ser quem realmente se é. Trocando em miúdos, minha liberdade é literal.

Nat Medeiros

NÃO ESTOU LOUCA

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Não estou louca. Esse é o título de um filme que vi recentemente pela Netflix e que me surpreendeu muito positivamente. A história gira em torno de Carolina, uma mulher de 38 anos que tem uma vida perfeita e vê tudo mudar repentinamente no dia em que descobre que é estéril e que seu marido, Fernando, está a traindo com sua melhor amiga, Maite. Como se não bastasse tanta sacanagem, Maite está grávida e lhe informa que o filho se chamará Dante, nome do pai de Carolina, que Maite diz considerar como seu pai também.

A reação de Carolina diante a situação não é a melhor, mas é impossível não sentir empatia pela personagem. (Quantas de nós não levamos umas rasteiras da vida e em algum momento perdemos um pouco a sanidade?). Carolina, como forma de reação, bebe muito e se joga de uma sacada. Sua queda não foi grave e ela sobrevive sem muitas sequelas, mas por ser considerada como um risco à sua própria vida, ela é levada para uma clínica psiquiátrica, onde ficará por no mínimo três semanas.

Até aí o filme é bem comum e confesso que quase desisti de assistir (não desistam, sério). Na clínica psiquiátrica se encontram personagens muito caricatos, que beiram o ridículo e nos passam uma sensação de irrealidade. Carolina parece ser a única personagem real e todos seus esforços são para sair daquele lugar lotado de pessoas atípicas. Mas aos poucos, a análise dos personagens vai se aprofundando e somos envolvidos pela trama.

É impossível não se ver na cena em que Carolina consegue internet com o objetivo de stalkear o ex (quem nunca?). Ela acaba vendo um vídeo em que Fernando e Maite exalam felicidade na piscina da sua casa. Abalada, recebe um conselho de uma colega de clínica que a incentiva a matar o cachorro do ex. Porém, uma outra colega lhe dá um outro conselho que é muito mais lógico e útil:

“-Se alguém te ferra, essa pessoa quer que você sofra. Óbvio, certo? E se você não sofre? E, ao invés disso, é muito feliz? Você o ferra de volta, não é? Viu? A melhor vingança é ser feliz, pode anotar.”

Óbvio que Carolina não se torna feliz do dia pra noite, mas ela passa a ser confrontada em suas próprias convicções. Em um dos seus diálogos com o psiquiatra, ela chega a conclusão de que seu consumo de álcool era abusivo e que ela nunca foi feliz pois tudo que sabia fazer era seguir o modelo padrão que a sociedade e principalmente sua mãe lhe impunham: casar com um homem pelo qual não era apaixonada para não ficar sozinha, ter filhos pois sua mãe queria netos e seguir uma profissão tradicional. De tudo que ela tinha feito da sua vida, nada era o que ela queria. Ela sofria por não poder ter filhos mas com o tempo se encoraja a assumir para si mesma que nunca quis tê-los. É o início da sua libertação.

“-Já ouviu falar alguma vez de “condicionamento social”? Antes mesmo de você nascer, já existem pessoas que estão projetando seu futuro com a desculpa de que “querem o melhor pra você”. Seus pais já sabem que religião seguirá, onde estudará e que profissão você terá. Você nem sequer nasceu e já tem pessoas que estão projetando suas frustrações com a desculpa de que “querem o melhor pra você”. O que é o melhor para a sua mãe não necessariamente é o melhor para você.”

Um outro diálogo interessante com o psiquiatra ocorre logo após o seu ex-marido ir visitá-la com sua atual namorada, Maite:

“-Sinto que nunca fui apaixonada por ele! Sou uma imbecil e me casei com ele puramente por pressão social. Nunca tivemos absolutamente nada a ver. Não quero mais vê-lo. Quero proibir seu acesso.

-Isso é fácil aqui na clínica, o complicado é no mundo real. Fernando é um terrorista emocional. Gente como seu ex-marido não tem a sensibilidade para ver que vir aqui com Maite é um ato de terrorismo. Ele é capaz de dizer as maiores burrices sem sentir culpa porque em sua lógica parece normal. Ele é o Talibã e você e é as Torres Gêmeas. E o que você tem que entender é que a única maneira de ganhar esta guerra é não entrando no jogo dele. Lição de vida: não se negocia com terroristas.”

É fácil entender o que o psiquiatra disse com isso e levarmos para a nossa vida: se você se relacionou com um terrorista emocional, alguém que não se preocupou com seus sentimentos, não negocie com essa pessoa. Não deixe essa pessoa se aproximar. Evite contato pois em todo e qualquer contato haverá chances de você sair pior do que estava.

O diálogo que Carolina tem com sua mãe, quando esta se mostra envergonhada por ter uma filha internada em clínica psiquiátrica e lhe arranja um encontro amoroso com um conhecido, é um outro marco importante em sua virada. Ela coloca limites claros na relação ‘mãe e filha’ e se assume como única responsável por suas escolhas dali em diante. Liberdade e responsabilidade estão intimamente ligadas. E Carolina sabe que é um preço que se vale pagar.

Mas minha parte preferida do filme é quando ela “reconhece sua loucura” e uma das médicas lhe diz que está apta a a receber alta, pois “só as pessoas que estão sãs é que são capazes de reconhecer sua loucura”.

O filme não é perfeito. Como disse anteriormente, em alguns momentos é caricato, afinal, trata-se de uma comédia dramática, e há também certos erros, como a forma em que o Transtorno de Personalidade Borderline é retrado através de uma personagem secundária. Mas vale a pena ser visto pelos diálogos que nos despertam e que podem ser aplicados em nossas próprias vidas. Uma mulher aparentemente feliz e normal teve sua vida despedaçada para só então entender que a felicidade pra ela não era nada daquilo que ela vinha vivendo por 38 anos. Costumo pensar que crises são aquelas oportunidades que temos de recomeçar de um jeito em que sejamos mais nós mesmos, mais felizes e por que não… mais loucos?

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Nat Medeiros

AQUI NESSA CIDADE ONDE O AMOR NÃO TEM MAIS VEZ

Eu sei que não será difícil pra você encontrar bocas e propostas interessantes agora que as mãos dela soltaram as suas mãos. Eu sei que você vai viver momentos de alegria e euforia. E estará mais comunicativo do que nunca, mais desapegado do que nunca, mais livre do que nunca. Diversão nunca foi o problema dessa cidade.

Aqui nessa cidade, onde o amor não tem vez, alguém te ofereceu um amor sem limites. Dizia ela que uma vida ao seu lado seria pouco. Ela te deu a fidelidade que você nunca pediu. A fidelidade que eu acho que você nunca nem chegou a acreditar que existia. Nessa cidade, onde tudo é tão fugaz, ela te ofereceu a eternidade. Ela te deu o que não se vende. Ela te ofereceu o que era raro. Mas é difícil falar de raridade quando se opta pela brevidade.

Aqui nessa cidade, onde o amor não tem mais vez, você tentou conciliar dois lados de uma mesma moeda. Queria a segurança que ela te dava sem abrir mão do que era efêmero. E ela que parecia aceitar tudo, o pouco e o nada, preferiu ir embora.

Nessa cidade onde as luzes brilham todas as noites enquanto os sentimentos se apagam, ela fez de tudo para que você acreditasse. Você fez de tudo para que ela desacreditasse. Ambos não conseguiram. Silenciaram.

Quando se tratava de amor, vocês eram visivelmente opostos. Porque o amor era tudo que ela tinha a te oferecer. E era tanto. Suas explicações eram tudo que você tinha a dá-la. E eram nada. Aqui nessa cidade, vocês nunca mais seriam um, mas dois. Dois seres agora tão distantes que mal daria para acreditar que continuam habitar a mesma cidade.

Natália Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

MINHAS CRISES SÃO TERREMOTOS

 

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(Capítulo 16 de um livro ainda não publicado)

É quando eu pareço mais forte, que minhas estruturas se balançam e me quebram por dentro, tornando ruínas o que aparentemente era tão sólido. Minhas crises são terremotos. Abalos sísmicos na alma. Eu até sinto quando se aproximam mas sou incapaz de impedi-las, segurá-las, distraí-las, persuadi-las. São nesses momentos em que eu queria ser água. Água não se quebra. Água se move, contorna, rodeia, sobrevive. Mas durante a vida toda eu fui rocha. Rochas são duras, fortes e parecem inatingíveis. Pouco se alteram, até que venha um terremoto. Ou uma crise. Mas quando se quebram, é feio demais, é triste demais. Você deveria ver o estrago que fica. Uma rocha quando se parte, se transforma em mil pedaços.

Natália Medeiros

Fonte da Imagem: Magdeleine

 

MEIAS-VERDADES MACHUCAM POR INTEIRO

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Em um mundo onde apenas meias-verdades são ditas, jogar com a verdade é arriscado. Louco é aquele que se lança de alma e coração. Sem armaduras ou subterfúgios. Eu me lancei. Eu poderia dizer que agora estou triste e que perdi um pedaço de mim. Não estaria mentindo e essas lágrimas que agora correm em meu rosto em plena tarde de uma segunda-feira cinza não negariam. Mas o fato é que eu estou aliviada. A outra metade da verdade, aquela que você escondeu por mais de um ano, finalmente apareceu. E eu… Bom, a verdade é que eu quase desabei com sua justificativa tão pequena, tão parca. Confesso. Mas então eu olhei pra mim mesma e me vi inteira, íntegra. Senti alívio. Como disse alguém antes, eu detestaria ser aquela que causou algum sofrimento a outrem. Prefiro ser a parte que corre o risco de ser ferida porque essa parte é sempre a mais viva. É sempre a mais livre. É sempre a mais generosa e altruísta.
Consciência… Era algo que você dizia tanto prezar e no final das contas, a sua estava longe de ser o que você dizia.
Eu, ao contrário, via tantos defeitos em mim mesma, me achava tão pouco, me sentia menor de alguma forma por não ser o modelo padrão de personalidade esperado por uma sociedade cada vez mais fria, líquida e equilibrada. Mas no fim das contas, eu é que fui autêntica do início ao fim. Sem dizer meias-verdades para me beneficiar de alguma forma.
Lembra quando através da carta da Leslie, em “A Ponte para o Sempre”, eu te disse que aprendi muito com você? Mas, no fim de tudo, o que você melhor me ensinou, de forma dura, foi a não ser como você. E devido a isso, te agradeço. Te agradeço até a noite virar dia, que se tornará noite novamente, e assim, sucessivamente até que esse mês deixará de ser esse mês. E um dia esse mundo deixará de ser esse mundo. Mas eu sei que as nossas consciências ainda existirão em algum lugar. E a minha se manterá livre. Certamente, em paz.
Lágrimas doem mas secam. Meias-verdades são um pouco mais amenas mas machucam por inteiro. Eu só queria que você soubesse que não sou apenas um corpo. Eu sou um coração que agora sangra, eu sou uma alma que agora está imersa em bruma. Eu só queria entender o porquê de não me ter dito o segundo motivo, a verdade inteira, antes… Eu só queria entender por que não ser franco quando já éramos íntimos. A carne não é nada, isso tudo um dia se esvai e foi por ela que você feriu minha alma e meu coração.
E ao mundo, se eu pudesse pedir alguma coisa, seria que eu não mais esbarrasse em alguém como você. Porque agora eu estou descrente, mas antes… bom, antes eu achava o amor… mágico.

Natália Medeiros

Fonte da Imagem: Google

ESSA MOÇA É DIFERENTE

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Ela pode até não parecer, mas é uma moça vulcânica no sentir. Equilibrada no falar. E um tanto quanto reservada no demonstrar. Sim, às vezes ela tem medo de deixar à mostra o que guarda lá dentro. Ela aprendeu a se conter como forma de não sofrer muito. Ela é profunda, mas é sensata.

Essa moça, às vezes, frequenta multidões, mas é em lugares pacatos que ela gosta mais de estar. Onde seus pensamentos podem ganhar voz, sem julgamentos e impedimentos. Ela não faz questão de que a aceitem. Mas não abre mão de que permitam ser ela mesma, sem máscaras. Afinal, é nisso que consiste a essência do ser. Pra ela, não há razão em estar aqui senão for pra ser quem realmente se é.

Ela, às vezes, me confunde pois possui traços de delicadeza com um quê de fortaleza. Dentro dela existem sonhos tão leves e simples, tão belos e raros que eu quase acredito que estou em um filme francês ao cruzar o meu caminho com o dela. Simultaneamente, ela é a intensidade de um filme de Almodóvar, ela é a presença de alguém que chega e se nota.

Poesias, músicas, livros e versos são apreciações que ela possui. Ouso dizer que Los Hermanos canta alguns dias da sua vida, mas é de Chico Buarque, (Ah, Chico!) que ela gosta mais.

E por falar em gostar, quando ela gosta, ela tem certezas, jamais dúvidas. No silêncio dos dias de solitude, ela aprendeu a se conhecer. Ela não ignora o que diz suavemente o coração. Embora seja fato que ela também tenha medos. Ainda assim, essa moça opta por escutar o que vem de dentro já que o quem vem de fora muitas vezes não vai de encontro à sua alma. E pelo que eu percebo é a sua autenticidade que vai levá-la além.

É no silêncio do quarto que ela encontra a si mesma. É na multidão que às vezes ela se sente só. É no mar ou na cachoeira que ela se diverte. É o barulho da chuva que mais a encanta. Há quem diga que ela é fechada, inacessível… Mas ela é apenas alguém que valoriza sua intimidade. É pra poucos e bons que ela se abre. É pra ainda mais poucos que ela se doa. Por fora ela é até comum, mas por dentro… Ah, por dentro ela é diferente!

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

 

 

Desde que nossas órbitas se tocaram

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Não houve tempo para despedir. E pra ser sincera eu acho que nem houve tempo direito pra te sentir. Não da forma como eu gostaria. Uma vida com você teria sido pouco. Uma era e uma galáxia também não teriam proporcionado tempo e espaço suficientes. Tudo isso era aquém do que eu pretendia. Era preciso muito mais para eu considerar razoável.

Você certamente foi o homem mais quebrado que eu conheci. Quebrado porque eram muitas peças, como um quebra-cabeça quase impossível de ser montado. E eu, também muito quebrada, me apaixonei por cada pedaço seu. Mas sabemos que misturar as peças de dois quebra-cabeças tão complexos, dificilmente daria certo. Como separá-las depois do depois? Impossível se eu nem mais me lembrava de como era o antes.

Cada dor que você aparentava sentir, cada dúvida, cada pensamento, cada insatisfação com a vida, cada questionamento… todos os seus cacos ultrapassaram a superfície da minha epiderme e ocuparam um lugar muito mais profundo, que nem mesmo eu sabia que existia. A minha dificuldade seria retirar cada um dos seus cacos quando agora eu suspeitava que eles já eram parte de mim. Até hoje, mesmo depois de tanto tempo, eles estão aqui.

Eu te disse tanto, mais do que disse a qualquer um. Simplesmente porque eu senti mais do que eu senti por qualquer outro. Ainda assim, muito ficou por dizer. E essas palavras me rondam incessantemente como feras em torno de uma presa já vencida. Eu sei que não vou ter paz, mas dizê-las já não faria mais sentido quando elas se referem a um passado cada vez mais distante.

Para então não pronunciar o que não deve ser pronunciado, eu toco em teclas que formam palavras que se aproximam vagamente do que eu deveria ter dito tempos atrás, quando por um acaso qualquer as nossas órbitas se tocaram, modificando a atmosfera de tudo aquilo que eu respiro. Noites, semanas e meses se passaram e eu tento aceitar o fato de que o ar que respirei junto a você um dia eu não vou respirar de novo.

Nat Medeiros

Fonte da imagem: Pinterest

 

A perda daquilo que não se atinge

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Eu sei como é desesperador se pensar que vai perder uma pessoa. Como dá vontade de gritar e fazer qualquer tipo de artimanha para que aquela pessoa fique. A gente se torna irracional, inventa histórias, tudo isso para não perdê-la. Mas a gente perde, e sabe por quê? Porque na verdade a gente nunca teve. A gente nunca tem ninguém e mesmo assim a gente sofre desesperadamente quando alguém que a gente ama vai embora.
Mas por quê a gente sofre por perder o que não se tem? Talvez porque perder o que não se tem seja perder duas vezes. A gente sofre mesmo antes do fim. A gente perde quando percebe que o sentimento não é recíproco. A gente perde quando percebe que ama sozinho. A gente perde quando o outro nãos nos inclui na sua vida, nos seus planos ou mesmo no seu fim de semana. A gente perde a cada dia que passa e a cada noite também. Não há sossego, não há trégua nessa dor da perda daquilo que não se atinge. É cruel. E o ápice da dor nos mostra que talvez a gente tenha começado a perder aquela pessoa no momento em que ela tenha entrado em nossa vida.

 Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

O ADEUS É INTERROGAÇÃO (E RETICÊNCIAS)…

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Mais difícil que dizer adeus, é manter esse adeus. O adeus não prevê a intensidade da saudade que virá e muito menos por quanto tempo a falta se estenderá. O adeus é vazio e representa um ponto final. Mas a vida é muito mais complexa do que pontos finais. Adeus é ao mesmo tempo a dureza incômoda da interrogação e é também as conflitantes e controversas reticências. Adeus é seguir mesmo sem saber. Sem saber se o amor deixará de existir, se a dor da falta nos dará trégua, se o coração acabará por se acalmar. Adeus é um tiro no escuro que a gente espera desesperadamente que acerte o alvo. O alvo do adeus é o esquecimento. Mas é tudo tão incerto e não há garantias como aquelas que nos oferecem quando compramos um smartphone novo. O adeus é se apoiar na razão, aliás, é muito mais do que isso, adeus é apostar na razão, mesmo sabendo que a qualquer hora o coração pode pôr tudo a perder, ou a ganhar, ao trair o nosso propósito inicial e tentar reverter a decisão que até então era a mais acertada.

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest