OS DIAS MAIS DIFÍCEIS


Os dias menos difíceis são justamente aqueles em que menos entendo a morte, ou em que mais a entendo erroneamente. Como apenas uma breve despedida. Como se você fosse voltar pra mim e pra nossa casa a qualquer instante. E sou quase capaz de ouvir a sua voz derrotar esse silêncio que se instaurou dentro e fora de mim. Os dias mais difíceis são aqueles em que entendo a morte tal qual é: definitiva, criando a impossibilidade de um contato onde até pouco tempo era cotidiano. Eu tento me agarrar às últimas lembranças e a suas últimas palavras, mas sei que o tempo virá, implacável, tornar as memórias que até então são tão vivas, cheias de cinzas. 

Nat Medeiros 

Fonte da imagem: Pinterest

A DOR DE PERDER O QUE NÃO SE TEM

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Eu sei como é desesperador se pensar que vai perder uma pessoa. Como dá vontade de gritar e de fazer qualquer tipo de artimanha para que aquela pessoa fique. A gente fica irracional, inventa histórias, tudo isso para não perdê-la. Mas a gente perde, e sabe por quê? Porque na verdade a gente nunca teve. A gente nunca tem ninguém e mesmo assim a gente sofre desesperadamente quando esse alguém vai embora.

Nat Medeiros

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EU QUERO UM AMOR QUE SAIBA SER SÓ

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Eu quero um amor que saiba ser só. Com todas as vírgulas que isso possa representar. Um amor que não precise de mim, porque precisar é verbo frio demais e não arbitrário. Eu quero um amor que saiba ser só, que não precise de mim, mas que queira estar. Querer, é este o verbo que escolho. Que estejamos juntos apenas enquanto quisermos.

Um alguém que sabe estar só, não usa o outro como forma de fugir de quem se é. Alguém que sabe estar só, não sente necessidade de se entregar a outra pessoa no primeiro desentendimento do casal. Alguém que sabe estar só, não se refugia em festas e farras intermináveis, pois já aprendeu a lidar com si mesmo.

Uma pessoa que sabe ser só, só entrará em um relacionamento se tiver sentimento e segurança o suficiente para tal. Caso contrário, esse alguém permanece sozinho. Eu não quero um amor frágil, que se estremeça em qualquer ventania. Uma pessoa forte não há porque querer um amor fraco.

Eu quero um amor que já se doeu por outros amores. Porque a dor nos ensina. E nos forja. E nos amadurece. Hoje eu sou mais madura também. Eu quero um amor que já amou antes e que foi feliz. Eu hei de respeitar o seu passado, as suas fotos antigas, hei de deixar as suas lembranças intactas porque eu sei que o que ele viveu faz parte do que ele é. Não se apaga o passado. Aprende-se com ele. Que ele respeite o meu passado e a minha história também. Então eu quero um amor que tenha um passado, mas que esteja ao meu lado em um mesmo presente. Que sejamos presentes um para o outro em toda a variedade de significados que essa palavra possa representar. E que esse presente almeje um futuro para que possamos concretizar a palavra “continuar”.

Eu não quero um amor que esteja comigo apenas quando mais nenhuma opção restar. Mas que opte por estar comigo mesmo tendo outras opções. Um amor que não esteja comigo porque não saiba estar só. Mas que tenha aprendido estar só, a gostar disso, e ainda sim queira ao meu lado estar. Porque é somente sabendo ser só é que podemos ser um bom par.

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

 

NAQUELA ESQUINA

Andava distraidamente naquele dia como andava em todos os demais dias. Sem necessidade de pensar muito no que fazia. Afinal, eu era apenas uma pessoa comum, em um lugar comum, fazendo uma atividade que a mim era comum. Em dado momento me aproximei de uma esquina. Aquela esquina. Parei. Precisava olhar para os lados antes de atravessá-la. Foi quando olhei para a esquina de cima. O sinal de lá acabara de fechar. E você, era o primeiro da fila a esperar com seu veículo. Percebi que era você porque no momento em que olhei, você se assustou e virou o rosto, na vã tentativa de me mostrar que não me vira. Sua tentativa de disfarce acabou por te denunciar.

O sinal fechar no momento em que você seguia com seu veículo. Eu atravessar a rua no momento em que seu sinal fechara. Nossos olhos se cruzarem no momento em que eu, distraidamente, me preparava para passar por aquela esquina. O relógio marcando o mesmo tempo. A geografia marcando o mesmo lugar. Fiquei a pensar em quantos acasos foram necessários para que aquele acaso ocorresse. Talvez muitos. Ou nenhum. Talvez aquilo não significasse muito, afinal.

Por um momento, após te olhar por uma fração de segundos, estive titubeante sobre qual atitude tomar. Mas logo percebi que seguir em frente não era só a melhor como era também a única alternativa plausível.  E então atravessei a rua sem olhar pra trás, deixando ali um passado recente que se tornava cada vez mais distante.

Naquela esquina, nossas vidas, agora tão indiferentes uma a outra, se cruzaram mais uma vez. Mas elas não se tocaram e algo me disse que nunca mais se tocariam.

NAT MEDEIROS

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UMA DOSE DE AMOR PRA CURAR UMA DOR

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E no meio do turbilhão, a vida me envia um pouco de paz. Quando perdi meu chão, você apareceu me oferecendo o céu. Você se lembra de todos os detalhes. Eu não me lembro de detalhe nenhum. Eu estava aérea… Mas me lembro de todas sensações. A sensação de estar segura. A sensação de estar com uma alma afim.

Você apareceu durante um vendaval em minha vida: quando eu descobri a verdade sobre alguém de quem muito gostei. E essa verdade me feriu fatalmente. Devido a fatos que prefiro me abster de citar, foi traumático pra mim. Era um momento que tinha tudo pra me fazer desacreditar do amor, mas você me abraçou de uma forma em que eu me senti protegida. Mesmo sem te conhecer tanto, estar ali naquele momento, ao seu lado, era o melhor lugar.

Você me chamou de Esfinge, pelo meu modo de te olhar, disse que leu Misto Quente de Bukowski e eu novamente fui ao céu. Não é todo dia que a gente encontra um cara de barba perfeita, que lê Bukowski e ainda cite páginas de poesia. Talvez você não tenha percebido, mas naquele momento eu tive certeza do que eu queria. O que eu queria estava bem diante dos meus olhos e eu me perguntei porque demorou tanto pra esse momento acontecer.

Falamos sobre Game of Thrones. Eu te dando spoiler sobre Brienne e Tormund e você dizendo que queria que ela ficasse com o Jaime. E ali você me ganhou de novo. Um homem sem medo de demonstrar sentimento. Se teve uma coisa que eu aprendi nesses últimos meses foi que homem que não demonstra sentimento é porque não gosta o suficiente ou porque não gosta o suficiente. E isso causa dor. E pra curar uma dor, só uma dose de amor.

Só que você foi muito mais do que uma dose. Porque uma dose acaba e você ficou. Quando dias depois te contei sobre o episódio traumático da minha vida, você disse: “Mulher, não tenha medo. Levante a cabeça e lute. Eu vou cuidar de você.” E aí que eu fui entender, você não estava comigo pelas metades, você estava comigo por inteiro.

O problema é a gente que, às vezes, se acostuma com pouco achando que é muito, mas quando cai em si percebe que na verdade não era nada do que imaginou. E enquanto nos apegamos àquele amor mais ou menos, que nos leva de forma mais ou menos, a gente acaba minando as chances de encontrar o amor pleno, aquele que a gente realmente merece. O que tem defeitos, sim, mas que também nos faz querer ser melhor, lado a lado, constantemente, diariamente.

Sobre aquele dia, em que a gente se abraçou pela primeira vez, eu aprendi que a gente nunca sabe sobre as barras que vai enfrentar nas próximas horas, mas também que a gente nunca sabe sobre a luz que vai aparecer no meio do caminho e iluminar tudo. Meu Sol. Sou sua Esfinge. Talvez só até a próxima semana. Mas quem sabe, quiçá, até a próxima Vida. Te quero beber em mil doses de amor.

Nat Medeiros

Publicado originalmente em: Superela

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TODOS OS DIAS O SEU SILÊNCIO ME DIZ QUE EU FIZ O CERTO AO ME AFASTAR

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Eu sempre tive certeza que a decisão que eu tomei era mesmo a mais acertada. Mas às vezes, principalmente no início, eu me pegava me questionando: “E se…?”. E se eu tivesse feito diferente, e se eu não tivesse demonstrado tanto, e se eu tivesse dividido a atenção que eu oferecia a você com um outro alguém? E se eu tivesse sido menos exclusiva, e se eu tivesse te tratado como alguém sem tanta importância pra mim? E se eu tivesse te amado menos?

Nós nunca sabemos o impacto que alguém vai causar em nossas vidas até que abrimos a porta e deixamos aquela pessoa entrar. O fato é que eu quase fechei a porta pra você. Foi por muito pouco que não te ignorei como forma de finalizar aquele nosso primeiro contato. Quando você pediu meu telefone, eu tive o impulso de te excluir, mas ao contrário disso, te ignorei. Fiquei dois dias sem te responder, eu não sabia o que fazer. Por fim, num impulso, te mandei meu número já pensando nas desculpas que eu haveria de te dar para te ignorar sem culpa.

A vida nos surpreende e ela me surpreendeu muito quando causou o nosso encontro. Não foi no primeiro nem no segundo encontro que eu me apaixonei. Mas desde a primeira vez que conversamos pessoalmente, eu percebi que ali havia uma mente pensante e eu sempre me atraí muito por pessoas inteligentes. Ao te conhecer melhor, sentimentos surgiram. Com o tempo, evoluíram. Me envolvi, relutei, mas por fim me entreguei e  posso dizer que foi um caminho sem volta. Te amar menos era impensável, ter sido menos exclusiva do que fui não era alternativa pra mim. Eu nunca me envolvi com mais de uma pessoa simultaneamente. E agora que eu amava alguém eu iria fazer isso? Esse tipo de jogo não cabia na minha vida. Se eu te perdesse, que fosse por amar demais e nunca por valorizar de menos. Eu não estava disposta a errar. Não com você.

Mas nenhuma relação depende apenas de uma só pessoa. E com o tempo eu fui obrigada a encarar a verdade: você não queria ser amado, pelo menos não por mim. E amar alguém que não quer ser amado é mais que arriscado, é atestado de sofrimento. Apesar de tudo, eu ainda estive disposta a ficar ali. A tentar transpor barreiras. Mas de onde eu tirava obstáculos, você construía muros. Nós dois não tínhamos os mesmos objetivos, um dia você disse. E você disse nada menos que a verdade. Eu terminei aquilo porque não havia caminho mais acertado que o fim.

Por mais que eu tivesse certeza desta decisão, como eu disse, às vezes me perguntei se aquilo era o melhor (era o mais certo, mas seria o melhor?). Procurei nas músicas, nos livros e nos astros resposta para os meus questionamentos. Em vão. Nada me respondia. Meses se passaram sem que eu encontrasse esclarecimento. Foi só então que eu percebi que meses se passaram e você se manteve calado. E o seu silêncio dizia tudo, ele era a resposta que eu precisava. O seu silêncio me mostrou todos esses dias que eu fiz o certo ao me afastar.

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest

O AMOR, A DOR E O MAR

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O amor e a dor são como o mar. Grandiosos, imensos, profundos. Podem nos envolver de tal forma que nos afunde, podem nos guiar de tal forma que nos transforme.

Transfor-MAR

Eu acredito na ideia de que devemos viver o amor e a dor com máxima intensidade.  Só assim poderemos saber o que há além da margem. Em 2010, após muitos anos sem ver o mar, peguei um ônibus e fui sozinha pra uma cidade litorânea, desconhecida para mim até então. Quando cheguei ao destino, tive urgência em ir à praia e entrar na imensidão da água. À medida que eu me aproximava, a cada passo dado, mais azul o horizonte ficava. O horizonte do céu, logo em seguida, o horizonte do mar. Lembro-me de ter ficado quatro horas seguidas dentro dele… A minha necessidade era tanta, a minha sede era tamanha… Eu precisava viver o mar enquanto eu e ele estávamos no mesmo lugar. Apenas me molhar não era o suficiente. Eu mergulhei.

O amor e a dor, assim como o mar, são imensos de tal forma que torna-se impossível passar ileso a eles. Por um tempo, eu andei de mãos dadas com o amor. Ele me permitiu ser a pessoa sonhadora que eu nunca fora até então. Ele me fez querer tanto e tão bem a alguém, de uma forma que até então eu não quisera a ninguém. Eu me desnudei do meu orgulho para mergulhar no sentimento.

O amor, como o mar, é intenso demais para ser controlado. É grande demais pra nos determos à margem. Eu amei, e esse amor foi maior do que eu. Foi tão forte que eu abandonei a segurança do cais e não pude mais sentir a areia sob meus pés. Eu aprendi a flutuar. E assim fui além: além do porto, além de mim.

Por um tempo também eu andei de mãos dadas com a dor. Porque a dor compreende parte do processo do amor. O luto existe e precisa ser vivido. É só vivendo a fundo a morte de um amor, é que podemos renascer. Então eu vivi tudo o que a dor me trazia: silêncio e solidão. Quantas vezes, nesse meio tempo, eu olhei para o mundo e suas luzes e não me via ali? Por isso me isolei, poucos me viram, poucos me ouviram, pouco eu escrevi. Vulnerável à dor e ao que ela me trazia, me distanciei para me transfor-MAR.

Ao mar, ao amor e à dor, eu aprendi a me atirar, sempre que preciso. A vida requer mergulhos e coragens. Andei de mãos dadas com o amor durante um tempo, andei de mãos dadas com a dor durante outro. Agora, novamente, vou ao mar. A minha alma tem sede de água e sal.

 

Nat Medeiros

Fonte da Imagem: Pinterest